Tenho o prazer de compartilhar esse excelente artigo escrito pelo meu amigo Pedro Henrique Mosmann. Apesar de não tocar na questão de milhas e pontos, é um texto com uma reflexão profunda que mostra o quão importante é viajar para o ser humano, mesmo que muitos ainda não se deem conta disso. Reproduzo abaixo a obra sensacional do amigo ipsis litteris.

O que Lenine tem a nos dizer sobre o coronavírus e o discurso hegemônico da imprensa.

De vez em quando, no meio da semana, preferencialmente nos horários mais inconvencionais possíveis, pego o carro, ligo a música e saio a rodar por aí sem destino certo. Há cerca de dois anos atrás isso acabou virando um hábito. Talvez um vício, mas por ser inofensivo, não me preocupei em eliminá-lo.

Nas primeiras semanas e meses em que, quase sem querer, comecei a fazer isso, eu mesmo não entendia muito bem o porquê. Com a gasolina no preço em que estava, com todos os custos de manutenção do carro, parecia meio sem sentido utilizá-lo dessa forma. Mas não consegui parar.

Aos poucos fui descobrindo que a música atrelada ao movimento das rodas, por algum motivo, fazia meus pensamentos fluírem, dentro daquela carcaça de metal, de uma forma que não acontecia enquanto estava parado.

Esses deslocamentos aleatórios me ajudam a ter muitas ideias e a colocar várias outras no lugar, mas levei um bom tempo até sacar por que isso acontecia. Só descobri quando finalmente me toquei sobre o quanto a vida é intimamente ligada a esse aspecto: estar em movimento.

Quem sabe se tivesse ouvido menos rock pesado e mais pop porto-riquenho, teria descoberto isso antes: o movimento, além de ser sexy, é o que anima e nos leva adiante.

Brincadeiras à parte, é precisamente isso, exatamente esse o elemento que essa maldita pandemia retirou. Ela nos deixou parados, estáticos — alguns mais, outros menos, eu sei, mas não há ninguém que não esteja se sentindo um pouco aleijado com isso tudo. Nos obrigou a pensar em possíveis consequências desastrosas para cada vez que saímos na rua e tem nos injetado altas doses de culpa pelo mero ato de caminhar ao sol. Matérias jornalísticas nos gritam a todo momento o quão transgressora é a ideia de frequentar um parque no final de semana.

Pensando em tudo o que mudou de março até aqui, foi numa dessas andanças que, ouvindo a bela canção “Paciência”, de Lenine, percebi como a nossa própria paciência com tudo isso já se transformou há tempos num embuste artificialmente insuflado por uma falsa ideia de senso comum produzida, na sua maior parte, pela imprensa. Vejam como esses versos descrevem exatamente o que estamos vivendo:

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência

Será que é tempo
Que lhe falta pra perceber?
Será que temos esse tempo
Pra perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara

Fala-se muito da perda do contato com as outras pessoas, do quanto a ausência da proximidade física tem nos feito sofrer, de como o isolamento social nos abalou, mas creio que não seja só isso que tem nos levado a toda essa…impaciência.

No Brasil, não perdemos totalmente o direito de ir e vir, é verdade. Mas com tantos lugares fechados, inclusive alguns dos bons espaços que temos ao ar livre, passamos a ir e vir menos por não ter aonde chegar.

Era o objetivo, eu sei. Mas e se esse for um preço alto demais para se pagar?

Nunca soube ao certo o que me fazia achar a vida de algumas pessoas tão mais interessante do que a de outras. Foi girando por aí que percebi como as melhores e mais ricas biografias pertenciam àqueles que não têm o hábito de ficar parados em um só lugar, vivendo cada dia como se fosse o mesmo.

Ao nos deslocarmos, seja de carro, a pé, de ônibus, avião, trem, metrô, de skate ou bicicleta, ao conhecermos novos lugares, novas culturas, outros povos ou apenas olharmos atentamente para as pessoas que estão ao nosso redor; ao explorarmos o desconhecido ou simplesmente revisitarmos nossos espaços de sempre, ainda que não usemos sapato ou façamos isso só por uma noite, entramos em contato com o fluxo natural da existência.

É por isso que, ao proibir viagens, fechar bares e restaurantes, interditar parques, bloquear o acesso a praias e calçadões, demonizar os aeroportos, maldizer das estações de metrô, o que as autoridades globais estão fazendo é conduzir a maioria de nós a uma estagnação incompatível com o simples fato — e com a dádiva — de estarmos vivos.

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Ao retirar as possibilidades de deslocamento, o que essa crise fez foi tornar a vida de todos nós mais desinteressante.

Assim, por mais que romantizem a calça de moletom, por mais que enalteçam a tele-entrega e o drive-thru, por mais que elevem a Netflix ao plano metafísico, nada disso substitui o fluxo natural da existência. Isso sem falar na maioria das pessoas que sequer contam com essas mordomias e, bem pelo contrário, tiveram suas vidas completamente destruídas pelo desemprego e pelo caos econômico.

Não estou pregando aqui a volta irrestrita de todos os shows, dos congressos, dos jogos de futebol, dos aeroportos lotados, nem dizendo que todos os pontos turísticos devem ser prontamente reabertos e tampouco propondo qualquer solução para o insolucionável, mas apenas olhando tudo o que estamos deixando passar e que, em escala global, começa a ter um peso cada vez maior.

Será que temos esse tempo para perder?

Não sei.

O que sei é que enquanto todo mundo continuar esperando a cura do mal, e a loucura continuar fingindo que isso tudo é normal, a maioria de nós continuará apenas fingindo ter paciência. Pois na verdade ela já se esgotou há muito tempo.

 

 

Pedro Henrique Carneiro Mosmann

É mestre em Direito e trabalha no Ministério Público do Estado do Rio Grande do Sul. Já viajou um pouco e, de forma menos frequente do que gostaria, escreve sobre as coisas que vive e também sobre as que imagina. Clique aqui para enviar um email para ele.